segunda-feira, 20 de maio de 2013

Discursos para um e outro lado



Por Alberto Carlos Almeida


Tornou-se lugar comum afirmar que a clássica divisão entre esquerda e direita deixou de existir. Dependendo do contexto, defender a visão contrária pode ser sinal de desatualização. Assim, apenas pessoas ultrapassadas e presas à terminologia dos anos 1960, talvez 1970, ainda dividiriam o mundo entre esquerda e direita. O que ocorreu nos anos 1980 em muito contribuiu para a eventual dissipação dessa diferença: partidos considerados de esquerda, como o Partido Socialista na França sob a liderança de François Mitterrand, e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), sob a batuta de Felipe González, adotaram políticas econômicas antes consideradas monopólio de partidos da direita.
O contexto brasileiro traz alguns elementos favoráveis para o ponto de vista que anula as diferenças entre os dois lados do espectro político: o principal líder do terceiro maior partido em número de deputados, Gilberto Kassab, afirmou recentemente que seu partido não seria nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. Guilherme Afif Domingos, prócer do PSD, acaba de acumular dois cargos contraditórios para quem utiliza a classificação supostamente "démodé": é vice-governador em um governo de centro-direita e ministro de um governo de centro-esquerda.


Aliás, no Brasil, ninguém é de direita. Paulo Maluf já afirmou em diversas oportunidades que é um político de centro-esquerda. A palavra "direita" tem conotação negativa não apenas no Brasil, mas também na Europa. Naquele continente, livros cujo tema é a política e têm a palavra "direita" em seus títulos tratam de partidos que defendem políticas extremistas, para não dizer protofascistas. Jean Marie Le Pen é classificado como sendo de direita. Não é o caso, por exemplo, do Partido Popular da Espanha e da Democracia Cristã na Alemanha. São considerados partidos conservadores. Nos Estados Unidos, o Partido Democrata é considerado liberal e o Partido Republicano é o representante do eleitorado conservador. Entenda-se por isso que o primeiro é a esquerda de lá e este último é a direita.
Evitemos a falácia semântica que com frequência nos impede de caminhar rumo a definições úteis, para entender o que ocorre ao nosso redor. É fato que a disputa política gravita, na grande maioria dos países, entre dois partidos importantes: um lado pode ser nomeado de esquerda, progressista ou mesmo liberal, como é o caso americano, e o outro lado pode ser batizado de direita ou conservador. A dificuldade na utilização da palavra "direita" tem a ver tão somente com o caráter pejorativo que denota para a maioria das pessoas. Esqueçamos por ora esse aspecto e a utilizemos somente em função de sua utilidade analítica.
Sim, analiticamente é possível classificar os partidos que se alternam no poder entre esquerda e direita, progressista e conservador (de novo, esqueçamos por ora julgamentos de valor que cada palavra carrega). No Reino Unido, o Partido Trabalhista é de esquerda e o Partido Conservador é de direita. O eleitorado de cada um deles tem a ver com o que defendem. Os trabalhistas britânicos têm relativamente mais votos junto àqueles que têm uma renda menor do que a renda média nacional. O oposto se aplica ao eleitorado do Partido Conservador.
Na Espanha, o PSOE é sistematicamente mais votado na Andaluzia, a região mais pobre de lá. No Brasil, isso ocorre com o PT no Nordeste. Ou seja, do ponto de vista eleitoral, a Andaluzia é o Nordeste da Espanha, ou vice-versa. Os mais pobres votam, em geral, nos partidos que levam a cabo políticas de redistribuição de renda. Eis aqui a principal diferença entre esquerda e direita quando se trata da adoção de políticas públicas, sejam econômicas ou sociais.
Os partidos de esquerda dão prioridade à redistribuição de renda em favor dos mais pobres quando se trata de escolher entre isso e políticas que resultem em mais eficiência econômica. Os partidos conservadores, ou de direita, fazem o oposto: dão prioridade a políticas que resultem em mais eficiência econômica. A alternância no poder ocorre quando, depois de um longo período de redução de desigualdade, quando a eficiência é colocada em segundo plano, a maioria da sociedade passa a demandar mais eficiência. Esse fenômeno fica claro para o eleitorado toda vez que o PIB deixa de crescer ou mesmo quando um país entra em recessão como resultado dessa falta de prioridade em políticas que resultem em eficiência econômica. O oposto também acontece. Longos períodos de governos de direita podem resultar no aumento da desigualdade, situação na qual o partido de esquerda é convocado pelo eleitorado para que políticas redistributivas voltem a ter prioridade.
Os governos Lula e Dilma foram e são inequivocamente de esquerda. A principal evidência que sustenta esta afirmação é a redução da desigualdade de renda no período. Durante os dois governos Fernando Henrique, houve, sim, redução da desigualdade quando mensurada pelo índice de Gini. Foi, porém, durante os governos do PT que essa redução se acentuou. A diferença entre os governos do PSDB e do PT tem a ver com prioridade. Para o PSDB, a prioridade foi a adoção de políticas que resultaram em mais eficiência econômica, sinônimo de desregulamentação da economia. A desigualdade foi combatida por meio do Bolsa Escola e outras políticas sociais, como a Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), mas não foi essa a prioridade. No período de governos petistas, a eficiência econômica foi buscada por meio da reforma da previdência, da aprovação do fundo de pensão dos funcionários públicos e outras políticas dessa natureza. A prioridade foi, porém, o combate à desigualdade feito com políticas como o aumento real do salário mínimo e o Bolsa Família.
Essa diferença entre os dois partidos é reconhecida pelo eleitorado. Em 2006 e 2010, Lula e Dilma tiveram votação avassaladora no Nordeste, a região mais pobre do país e a que mais se beneficiou das políticas de redução da desigualdade. Enquanto isso, São Paulo, o Estado mais rico, vem sistematicamente dando vitória aos candidatos a presidente do PSDB. Igualmente interessante é o mapa eleitoral de Minas Gerais: a região mais próxima do Nordeste dá vitória ao candidato do PT, e a região mais próxima de São Paulo escolhe os candidatos a presidente do PSDB.
Além disso, quando se solicita ao eleitor, por meio de pesquisas de opinião, que compare o PT com ele mesmo quanto aos atributos "cuidar dos pobres" e "governar com eficiência", o primeiro alcança percentual mais elevado. Na avaliação do PSDB, o resultado é o inverso: governar com eficiência vem na frente de cuidar dos pobres. Ou seja, as imagens relativas de cada partido estão de acordo com as políticas públicas que adotam. O mesmo ocorre com seus respectivos eleitorados.
A eleição de 2014 terá no centro do debate as políticas públicas que redistribuem renda, assim como as políticas que resultam em mais eficiência econômica. Aécio Neves tem criticado o PT sempre batendo na tecla de que os governos Lula e Dilma não foram capazes de construir e reformar estradas, nem de desenvolver a estrutura aeroportuária de que o país necessita. Note-se que esta é a agenda da eficiência, não é a da redistribuição de renda.
O PT, em sua recente propaganda política na TV e no rádio, enfatizou que os governos Lula e Dilma enfrentaram a pobreza e a miséria. Uma das estrelas do programa foi o eleitorado pobre; outra, o negro. Não foi por acaso. A população negra, homens e mulheres, foi uma das grandes beneficiárias das políticas de redistribuição de renda.
Qualquer candidato que, como Eduardo Campos, almeje ser a terceira via, terá que lidar com os dois temas, o da redistribuição de renda e o da eficiência econômica. Mais do que isso, ainda que leve o nome de terceira via, um terceiro candidato precisa ter lado, não apenas o lado da oposição (porque candidato governista só existe um), mas também o lado que escolhe uma prioridade, o lado que o coloca à direita ou à esquerda do espectro político. Quanto a isso, não restam muitas opções. Um terceiro candidato que também seja de oposição a um governo de esquerda precisará defender um programa de governo que tenha a eficiência econômica como prioridade. A grande questão é qual a fatia do eleitorado que esse discurso pode conquistar em 2014. Considerando-se as projeções de hoje, parece não ser das maiores.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de "A Cabeça do Brasileiro". E-mail: alberto.almeida@institutoanalise.comwww.twitter.com/albertocalmeida

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